Dinastia científica e reconhecimento
Meu avô — Ilmnur Mindiyarov (1888–1974)
Meu avô, Ilmnur Mindiyarov (1888–1974, pai de minha mãe, Anfisa Gilemnurova), foi contemporâneo de épocas difíceis. Percorreu o caminho desde a velha ordem do Império Russo até a Samarcanda soviética, conservando em si a fé e a luz do conhecimento.
Foi um verdadeiro educador e construtor. Através dos anos de repressão e de provações, levou consigo o que há de mais precioso — a luz do conhecimento (Ilm) e a pureza da alma (Nur).
Nos anos de repressão (1938), da sua aldeia natal de Ishkarovo, na Bashkíria, para a terra de Samarcanda, ele não trouxe ressentimento, mas sim o espírito de criação. Trouxe consigo o conhecimento e a cultura.
Era um homem alto e de grande erudição, dominava fluentemente o árabe e interpretava o Alcorão. Ensinava a ler e a escrever, era mufassir, tinha um profundo conhecimento da língua árabe e ensinava a pronunciar corretamente o texto árabe. Dava calor humano e abria janelas para o mundo a todos que desejavam aprender.
Ele não apenas transmitia conhecimento — ele forjava o caráter, preparando-nos para grandes conquistas e vitórias.
Seu nome é agora o nosso lema. Sua vida é o nosso exemplo. Fazemos a história com a nossa própria inteligência, como ele nos legou.
Minha mãe
O que conquistei... Sou grato ao meu Tio Fanis e ao meu Anjo, minha amada e inigualável Mãe Anfisa... Todo o resto da minha vida, as novas invenções e conquistas, dedico à memória dos meus entes queridos, que me foram abnegadamente devotados…
Minha mãe, Anfisa Gilemnurova, nasceu na aldeia de Ishkarovo (Bashkíria), em uma conhecida família bashkir, em 17.12.1933. Concluiu 8 séries na escola bashkir. Seu pai (meu avô) chamava-se Ilmnur (Gylymnur, em bashkir), e sua mãe, Mavtukha. Meu avô era da linhagem dos Ishkarov, e minha avó, da linhagem dos Sultanov.
Um pouco de história: o fundador da aldeia de Ishkar foi um nobre da Bashkíria, Ishkar Arslanov. Filho de Ishkar — Kulmet Ishkarin (c. 1720-1800). Filhos de Kulmet — Mukhamedrakhim, Mukhamedsharif, MukhamedSadyk e Amir. Mindiyar (1850-). Filhos de Mindiyar — os Mindiyarov: Safuan, Lutfulla, Sharifulla, Khairulla, Mukhamednur, Gylymnur (Ilmnur, meu avô) …
Havia também a famosa linhagem dos Sultanov, que o povo muitas vezes chamava de “governadores” por causa de seu enorme poder.
Minha avó Mavtukha (o nome, que significa “aberta”, era popular no meio bashkir nos séculos 18-19) pertencia a essa famosa linhagem.
Em 1938, meu avô Ilmnur Mindiyarov foi reprimido e deportado de sua aldeia natal de Ishkarovo para as terras de Samarcanda. Minha mãe permaneceu na aldeia com os irmãos. Somente em 1947, depois de concluir 8 séries na escola bashkir, minha mãe foi, com os irmãos mais novos, ao encontro do pai no povoado de “Mitan” (região de Samarcanda), e lá mesmo concluiu a escola secundária uzbeque.
Quando eu ia à aldeia de Ishkarovo, pessoas idosas que tinham visto minha mãe ainda em 1946–1947 contavam: “Ela era tão bonita e inteligente que imitávamos a sua beleza”.
My memory
Without you this life is only a dream to me,
It is you, my tender miracle.
The endless wisdom of your eyes
And your voice that I hear everywhere.
I look at the stars in the silence,
Believing: there, in the serene expanse,
Together with the angels, as their equal,
You carry away earthly grief.
My thoughts and dreams are of you,
And in the quiet my eyes softly weep.
Our kind fairy tale will bring
Us back to those warm shores.
I will press your palm to my heart,
Feeling the dear, familiar warmth,
And through tears I will embrace you:
“We have come back, the time has come!”
You will be the most beautiful dream,
The sweetest that memory keeps.
Even in the other, unearthly world,
Your image heals me in an instant.
I pray to God — to Allah —
For just this one meeting for us,
To say once again: “I love you, Mama,”
So that the light in my heart never fades.
…My mother, Anfisa Gilemnurova,
was my temple of love,
tenderness, inspiration.
How I miss you and
how I long for you…
My dear, one and only,
wise, beloved…
Your grandchildren have grown up...
A história da nossa família: de um valente coronel a sábios mestres
Meus queridos netos! Quero que vocês conheçam a história da nossa grande família. Pelo lado de minha mãe (Anfisa Gilemnurova), nossa linhagem começa na Bashkíria, na bela aldeia de Ishkarovo. Vocês sabiam que essa aldeia recebeu o nome do nosso antepassado direto? Ele se chamava Ishkar Arslanov. Há mais de 250 anos, ele foi um verdadeiro coronel bashkir, líder e companheiro de armas de Iemelian Pugatchov. Lutou pela liberdade do seu povo.
Quando a revolta se extinguiu, Ishkar demonstrou sabedoria: foi ele mesmo ao encontro dos generais, conseguiu proteger sua família e conservou essas terras. Em 1795, havia em toda a aldeia apenas 10 casas, e lá viviam somente os nossos parentes! O sobrenome “Mindiyarov”, que a família de minha mãe carrega, vem do nome do tetraneto do coronel — Mindiyar. Nossa linhagem é sólida e atravessa os séculos: de Ishkar a Kulmet, depois ao seu trineto Mindiyar e, por fim, ao filho de Mindiyar — meu avô Gylymnur.
Meu avô Gilemnur e minha avó Mavtukha (seu nome se traduz lindamente como “alma aberta”) eram pessoas admiráveis. Eram educadores — levavam às pessoas a instrução, a cultura e a bondade. No difícil ano de 1938 começaram as perseguições, e meu avô teve de deixar sua Bashkíria natal rumo à distante Samarcanda. Mas o mais importante: em seu coração ele levou para a nova terra não a raiva ou o ressentimento, mas o espírito de criação, o amor ao trabalho e um imenso conhecimento.
A bisavó de vocês, Anfisa, estudou naquela mesma escola bashkir de Ishkarovo e a concluiu em 1947. E até o fim de 2025, na aldeia vizinha de Gremuchy Klyuch, viveu sua prima — a vovó Ilgiza (1936–2025). Lembrem-se de suas raízes, orgulhem-se de seus antepassados e sejam construtores como eles foram.
My family tree
Where faith, will and science meet: the chronicle of our family
The united genealogical chart (shezhere)
Brothers and sisters: Uktam, Erkin, Tulkin, Gulchehra, Gulsara, Gulbakhor
I. The paternal wing: the history and fates of the Usman Khoja brothers
On the paternal side the family traces its descent to the noble Banu Hashim clan of the Quraysh tribe — to Hazrat Ali ibn Abi Talib himself, the fourth Rightly Guided Caliph and son-in-law of the Prophet Muhammad. In Central Asia the descendants of this branch are traditionally honoured as members of the Khoja estate (khojalar).
- Imam Ishaq Khoja (Ishaq Bab): A direct descendant of Hazrat Ali and an outstanding missionary. His line of succession laid the stronghold of literacy and enlightenment in the Karakul oasis of the Emirate of Bukhara.
- Ikrom Khoja: A venerable keeper of the family’s traditions in Karakul at the turn of the 19th and 20th centuries.
- Grandfather — Usman Khoja, son of Ikrom Khoja (1880s – 1924): A man of legendary will. At the age of 16 he walked from Karakul to Karmana completely barefoot, promising to achieve everything by his own mind. He became the largest landowner (400 tanobs of land) and a patron — he gave work to dozens of people and had them educated free of charge. In 1924 he was brutally killed by basmachi while defending his home (its inner and outer courtyards, ichki and tashqi hovli) and refusing to hand over his horses and gold.
The fates of Usman Khoja’s children (the brothers of Iso Khoja):
The tragedy of 1924 left the large family without its head, yet Usman Khoja’s sons (Malik, Kambar, Rajab) showed unity and courage and preserved the family through the hardest years of Soviet repressions and collectivization:
- Malik Khoja (1900–1970): The eldest son. His children: Mayram, Mastura, Mabub, Bakhshillo. Mayram’s children: Ramazon and Akhtam; Mastura’s children: Mukhammad, Bakhodir, Lola and Dilmurod; Mabub’s children: Odil, Olim, Ilkhom and Dildora; Bakhshillo’s children: Khasan, Khusan and Takhir.
- Kambar Khoja: Named after the loyal companion of Hazrat Ali. His children: Sadulla and Robiya. Robiya’s children: Rokiya (her children are Gulamdon, Azamat, Dzhamilya, Yashin and Lochin), Roziya and Kamol. Kamol’s children: Otabek, Sanobar, Feruza and Sherali; Otabek’s children: Guzal, Amirbek and Asilbek; Sherali’s children: Munisa, Rakhmatullo, Kamolzhon and Robiya.
- Mukhtor Khoja: A worthy member of the family. His son: Ozod.
- Rajab Khoja: He left behind a large, far-reaching branch. His son is Sharof Khoja (the father of Shakhzoda and Lutfullo; Lutfullo’s children are Umid and Laziz). His other sons: Bobojon and Shavkat.
- Zikrillo Khoja: His name, which carries the deep Sufi tradition of the remembrance of God, became an important part of the brothers’ shared spiritual core. His daughter: Muborak; her children are Ibrahim (whose son is Bakhodir Zhuraev) and Makhmud.
- Lukmon Khoja (an adopted son who became one of their own): The son of a destitute widow whom Usman Khoja took into his care, saving her from poverty. Grandfather erased the difference between born and adopted children: he gave Lukmon the status of a khoja and raised him on an equal footing with everyone. His worthy son: Khidoyat (“the Right Path”).
- Father — Iso Khoja (Iso Usmanov) (1922 – 2013): The youngest son of Usman Khoja (by his fourth wife). He went through the hell of the Great Patriotic War on the front line of the 1st Ukrainian Front. Gravely wounded, he was saved and nursed back to health in a potato pit by a Ukrainian woman, Grandma Nadezhda, who risked the lives of her own family. He passed away at the age of 91, leaving his sons the precept of the “golden mean”: rejecting the party fanaticism of the CPSU and religious radicalism in favour of freedom of the mind.
II. The maternal wing: the “Light of Knowledge” of Ilmnur Mindiyarov
The maternal line brought into the family refined intellectual erudition and academic steadfastness.
- Founder of the line — Ishkar Arslanov: A nobleman of Bashkiria and the founder of the village of Ishkarovo. According to the 4th revision of 1782 and the 5th revision of 1795 (tax censuses of the Russian Empire), during Pugachev’s Rebellion of 1773–1775 he was already about 73–75 years old, and in 1783, at over 80, he was still a serving volost starshina (district elder). A volost starshina was responsible for collecting taxes, keeping order, enforcing the law and judicial functions in the territory under his authority. When I was very small, my grandfather Ilmnur and my mother told me: Ishkar is our forefather, and his name means “goddess of love”. His son was Kulmet Ishkarin (c. 1720 – 1800), from whom several branches of families well known in the district descend: the Mukhametrakhimovs, Sharipovs, Mindiyarovs and others. Kulmet’s children were Mukhamedrakhim, Mukhamedsharif, MukhamedSadyk and Amir.
- The direct line from Kulmet to Mindiyar: Amir Kulmetov was Kulmet’s son. His son was Mukhametamin Amirov (born c. 1787), an ukaz-appointed azanchi (muezzin). His son was Valiakhmet Mukhametaminev (born c. 1817), an ukaz-appointed imam of the cathedral mosque. His son was Mindiyar Valiakhmetov.
- Mindiyar Valiakhmetov (b. 1850): The great-great-great-grandson of Ishkar Arslanov, an ukaz-appointed azanchi. The Mindiyarov surname comes from him. His children: Safuan, Lutfulla, Sharifulla, Khairulla, Mukhamednur, Gylymnur (Ilmnur). Mukhamednur’s daughter was Ilgiza (1936–2025), my mother’s cousin.
- Maternal grandfather — Ilmnur (Gylymnur in Bashkir) Mindiyarov (1888 – 1974): A Bashkir intellectual whose name literally translates as “Light of Knowledge”. In the tragic year of 1938, fleeing Stalin’s repressions, he left his native village of Ishkarovo in Bashkiria and resettled on Samarkand land. He had a unique intellect, an impeccable command of Arabic and was a recognised mufassir — an interpreter of the sacred meanings of the Quran — teaching people to read and write to the end of his days.
- Maternal grandmother — Mavtukha: She came from the famous Sultanov family, whom the people often called “governors” because of their enormous power. The name Mavtukha (translated as “open”) was popular in the Bashkir community in the 18th–19th centuries.
- Mother — Anfisa Gilemnurova (Usmanova) (17.12.1933 – 21.12.1998): She was born in the village of Ishkarovo (Bashkiria) into a well-known Bashkir family and completed 8 grades of the Bashkir school. A woman of exceptional inner culture who lovingly passed on to her children a love of books and respect for work and fundamental knowledge.
III. The present and the future: the scientific dynasty of Rustamzhon Usmanov
All the qualities of the great ancestors — the creative spirit of Usman Khoja, the wise “middle path” of Iso Khoja and the “Light of Knowledge” of grandfather Ilmnur — were fully embodied in the eldest son, Rustamzhon Usmanov. A graduate of Moscow State University, a distinguished scientist in applied mathematics and mechanics and laureate of the State Prize of the Republic of Uzbekistan of the first degree, he has devoted his life to leading people out of ignorance towards the light of science. Symbolically, he dedicated the name of his scientific brand, IlmNur, directly to the memory of his beloved grandfather Ilmnur Mindiyarov, uniting the heritage of both branches under this name.
Today this great tree continues to grow and grow stronger through the children and grandchildren of Rustamzhon Usmanov:
- Brothers and sisters: Uktam, Erkin, Tulkin, Gulchehra, Gulsara, Gulbakhor.
- Rustamzhon’s children: Gayrat, Nilufar, Mukhayyo.
-
Grandchildren (the fifth generation from Usman Khoja and Ilmnur Mindiyarov)
- Gayrat’s line: Madina, ALISHER (who continues the direct male line).
- Nilufar’s line: Nargis, Muattar.
- Mukhayyo’s line: AMIRSHAH (who continues the male line), Yasmina.
The history of our dynasty proves it: wealth can be taken away and houses can be destroyed, but the genetic code of enlightenment, honour and knowledge laid down by great ancestors cannot be destroyed. It lives on in the future.
Através da dor, do silêncio e das humilhações: a história da fortaleza de minha mãe Anfisa e de meu avô Ilmnur Mindiyarov
A história da nossa família é uma ferida que não cicatriza, deixada pelos duros anos de repressão. É o relato de como a implacável era stalinista despedaçava destinos humanos, e do preço desmedido e terrível que minha mãe, seus filhos e todos os nossos parentes tiveram de pagar.
Tudo começou quando meu avô, Ilmnur Mindiyarov, foi reprimido e desterrado para o povoado de Mitan, na região de Samarcanda.
Naqueles anos, o estigma de “inimigo do povo” transformava num instante um homem respeitado num pária, privando sua família de direitos e de proteção. Desde que ele foi reprimido, começou um verdadeiro inferno para os seus entes queridos.
Minha mãe carregou nos ombros todo o peso daquele tempo desumano. Mas o golpe mais doloroso para ela foi a crueldade humana que tiveram de enfrentar no novo lugar. Envenenados pela propaganda, endurecidos pela miséria, algumas crianças e adultos do lugar descarregavam sua raiva sobre os indefesos deportados.
Eu era então muito pequeno e lembro como as crianças da vizinhança zombavam de nós e nos chamavam de “tártaros” da maneira mais maldosa e humilhante. Minha mãe, Anfisa Gilemnurova, estava ao lado. Ela ouvia tudo.
Cada palavra cruel lançada contra seus filhos pequenos a feria bem no coração. Mas ela não podia gritar em resposta, não podia nos defender abertamente num povoado estranho e hostil. Ela se calava. Toda aquela mágoa ardente, a injustiça e o medo pelo nosso futuro, ela os guardava resignadamente dentro de si, sem dizer uma palavra a ninguém, para não multiplicar a desgraça.
Aquele silêncio de tantos anos, que dilacerava a alma, não passou sem deixar marcas. O desgosto reprimido e o desamparo abalaram sua saúde. Por fim, o organismo de minha mãe não resistiu a esse estresse colossal: ela contraiu uma doença grave e incurável — a doença de Werlhof. Seu sangue, seu corpo literalmente choravam as lágrimas não choradas e a injustiça sofrida em Mitan.
Zombavam de sua família, de seus filhos, simplesmente porque eram colonos especiais, e esse trauma ficou conosco para sempre. Mas, mesmo definhando com a doença, minha mãe não se deixou quebrar. Conservou em si a humanidade, a dignidade e um amor sem limites. Sacrificou sua saúde e sua vida, recebendo sobre si todo o golpe, para nos proteger. Este texto é uma homenagem à memória de meu avô Ilmnur Mindiyarov, de minha querida mãe e de todos os nossos parentes. Seu sofrimento não deve ser esquecido. Lembramos sua dor, curvamo-nos diante da santa e silenciosa façanha de minha mãe, e essa memória ficará conosco para sempre.
A história de um salvamento
Em memória de meu pai — Iso Usmanov, combatente da Grande Guerra Patriótica, e de sua salvadora, a Vovó Nadia
Cada família que viveu a Grande Guerra Patriótica tem a sua própria memória. Mas, em nossa família, essa memória é especial — ela é tecida de lágrimas amargas de perda, de uma coragem inacreditável e de uma grande misericórdia materna, que se revelou mais forte do que a guerra e o ódio entre povos.
Nos terríveis anos da guerra, nossa família sofreu uma perda irreparável. Três irmãos de sangue de meu pai foram brutalmente assassinados pelos banderistas. Isso aconteceu no período mais sangrento e cruel do confronto — em 1944–1945. Para nossa família, essa tragédia permaneceu como uma ferida que nunca cicatrizou. Mas, ao mesmo tempo, naquela mesma terra ucraniana queimada pela guerra, aconteceu um verdadeiro milagre. Meu pai sobreviveu. E sobreviveu graças àquela que até hoje lembramos com reverência e lágrimas de gratidão — uma simples mulher ucraniana, a quem chamavam de Vovó Nadia (Nadejda).
Meu pai, Iso Usmanov (filho de Usman, neto de Ikrom), uzbeque de nacionalidade, foi parar no centro daquela impiedosa guerra de guerrilhas na Ucrânia Ocidental. Lutou com bravura na linha de frente, nas fileiras da lendária 1ª Frente Ucraniana, sob o comando do marechal Ivan Stepanovitch Konev. Durante os duríssimos combates de 1944–1945, Iso foi gravemente ferido e estava condenado à morte.
Mas a destemida Vovó Nadia o escondeu bem na periferia da aldeia. Ela ocultou o soldado uzbeque ferido em uma cova fechada, onde normalmente se guardavam batatas e mantimentos. O risco era mortal: se os banderistas ou as tropas punitivas descobrissem que ela escondia um combatente do Exército Vermelho, ela e toda a sua família enfrentariam uma execução inevitável e cruel.
Todos os dias, arriscando a própria vida, ela descia àquela cova fria de terra, tratava as feridas do jovem Iso e cuidava dele, dando-lhe de beber leite de cabra morno — o único remédio disponível naqueles dias terríveis. Meu pai recordava como ela frequentemente chorava sobre ele e dizia em sua língua materna: “Eu também tenho três filhos… Eles também estão em algum lugar por lá, como você, talvez feridos…”
Em seu coração de mãe não havia divisão entre “os nossos” e “os estranhos”. Ao salvar o filho uzbeque de outra mãe, Nadejda rogava a Deus que alguém, da mesma forma, salvasse e poupasse os seus próprios filhos. Infelizmente, a guerra foi impiedosa com sua família tão sofrida: dois de seus filhos morreram na frente de batalha, e o terceiro voltou, mas com a saúde arruinada, e morreu logo depois da guerra. Meu pai, Iso Usmanov, tornou-se para ela aquele filho que ela conseguiu arrancar das garras da morte.
Estando naquela cova e conversando por longos dias com sua salvadora, meu pai não apenas a ouvia — ele absorvia de todo o coração a fala dela. Uzbeque de nacionalidade e conhecedor perfeito do russo, ele aprendeu o ucraniano com perfeição. Essa língua tornou-se para ele não apenas um meio de comunicação, mas a língua do seu segundo nascimento.
Passaram-se décadas. A história parecia ter ficado no passado, mas a memória do feito de uma simples mulher ucraniana e da coragem de um soldado soviético permaneceu viva em nossa família no Uzbequistão. A justiça triunfou depois de longos 59 anos.
Em 2004, o Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da Ucrânia na República do Uzbequistão chegou oficialmente à nossa cidade de Navoi. Em nome do Presidente Leonid Kutchma, nosso pai, o veterano Iso Usmanov, recebeu solenemente uma condecoração estatal — a medalha comemorativa “60 anos da libertação da Ucrânia dos invasores fascistas”.
Essa alta condecoração no peito de Iso Usmanov tornou-se um monumento sagrado a ambos. No metal dessa medalha fundiram-se para sempre a bravura do soldado do marechal Konev, a grande misericórdia da Vovó Nadia e a memória eterna de seus filhos heróis tombados. Essa medalha confirmou: a verdade que compartilhavam e a sua humanidade venceram o esquecimento.
No dia da entrega, aconteceu algo que comoveu profundamente toda a missão diplomática. Meu pai, o idoso uzbeque Iso Usmanov, depois de quase 60 anos, falou com o embaixador no mais puro e impecável ucraniano. Não havia esquecido uma única palavra, uma única entonação. Essa língua permaneceu com ele como um sagrado tributo à memória, como eterna gratidão à Vovó Nadia, que lhe deu a vida.
Em nosso arquivo familiar guardamos com carinho uma fotografia daquele dia memorável em Navoi. Essa foto e a própria medalha são o nosso maior tesouro. Elas provam que, mesmo nos tempos mais sombrios, a humanidade, a bondade e a lealdade vencem qualquer crueldade. A medalha de um soldado que lutou sob o comando do marechal Konev e o grande feito da Vovó Nadia permanecerão para sempre na memória da nossa família.
Meus mestres
Sobre os meus mestres.
Meus orientadores científicos e consultores na área de mecânica dos fluidos, dos gases e do plasma são os cientistas de renome mundial Kh.A. Rakhmatulin e R.I. Nigmatulin.
Sob a orientação deles, realizei minha tese de candidato (1987) e minha tese de doutorado (2015). O trabalho foi desenvolvido no Departamento de Dinâmica Ondulatória e dos Gases da Universidade Estatal de Moscou Lomonossov. A pesquisa e a parte científica aplicada foram conduzidas em estreita cooperação com o Combinado Mineiro-Metalúrgico de Navoi (NMMC), no Uzbequistão.
Sob a orientação dos meus mentores, foi criada uma base única no campo da mecânica dos meios multifásicos. Foram desenvolvidas fórmulas e métodos numéricos que descrevem o comportamento de líquidos, gases e calor no interior de corpos de minério geológicos porosos.
Os modelos fundamentais permitiram a previsão precisa da dinâmica de espalhamento das soluções. Isso serviu de base para uma tecnologia integrada, altamente eficiente e ambientalmente segura, de extração e processamento de urânio e de metais raros, de terras raras e preciosos nas instalações do NMMC.
Os cálculos matemáticos ajudaram a projetar novos processos tecnológicos para a extração de ouro a partir de matérias-primas complexas e de difícil processamento e de resíduos tecnogênicos.
P.S. Expresso uma gratidão especial aos meus pais — à minha amada e inigualável mãe Anfisa Gilemnurova e ao meu pai Iso Usmanov — pelo apoio infinito e pela fé em mim.
Um agradecimento sincero ao meu tio Fanis Mindiyarov e ao meu querido avô Ilmnur Mindiyarov pelos sábios conselhos, pelo cuidado e por um ombro firme sempre ao meu lado.
Quero também expressar um reconhecimento especial aos meus estimados professores da Universidade Estatal de Samarcanda — A.Sh. Sharapov e Kh.T. Turaev — pelos conhecimentos transmitidos, pela paciência e pelo elevado profissionalismo, que se tornaram uma referência importante no meu caminho.